Resenha “É isto um homem?”

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“Há muito tempo que parei de tentar compreender. Quanto a mim, estou tão cansado de me aguentar no pé ferido e ainda não medicado, tão enregelado e faminto, que já não ligo para nada. O dia de hoje bem pode ser meu último, e esta sala, a sala de gás da qual todo mundo fala, e daí? Que é que eu poderia fazer? Dá no mesmo encostar-se na parede, fechar os olhos e esperar.”

É isto um homem?, publicado pela primeira vez em 1947, traz o relato de um dos poucos sobreviventes a um dos maiores massacres da história da humanidade, realizado nos Campos de Extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o que torna a obra ainda mais impactante.

A primeira coisa que você precisa saber sobre este livro é que ele é diferente de tudo o que já vimos e lemos sobre o Holocausto, inclusive daqueles livros de mil e tantas páginas, resultado de pesquisas e do trabalho de anos de grandes historiadores. Contudo, como o próprio autor diz, ele não traz nada de novo. Não há novas denúncias, apenas o que já é de conhecimento de todos os leitores espalhados pelo mundo. Antes, trata-se de uma obra contada não em ordem cronológica, mas em ordem de urgência, cujo maior objetivo é fornecer documentos para o estudo de alguns aspectos da alma humana.

Primo Levi (1919 – 1987), foi um químico e escritor italiano judeu, preso pela milícia fascista em 13 de dezembro de 1943, no auge de seus 24 anos, quando fazia parte do movimento de resistência italiano. Foi levado para Auschwitz em 1944, após o governo alemão resolver prolongar a vida média dos prisioneiros destinados ao extermínio, em razão da escassez de mão-de-obra. Cabe aqui dizer que, por mais absurdo que seja pareça, Auschwitz representava a concessão de uma “melhora razoável” no nível de vida dos prisioneiros e, ainda, a “suspensão temporária” das matanças arbitrárias.

“A noite chegou e todos compreenderam que olhos humanos não deveriam assistir, nem sobreviver a uma noite dessas. Nenhum dos guardas, italianos ou alemães, animou-se a vir até nós para ver o que fazem os homens quando vão morrer. Cada um se despediu da vida da maneira que lhe era mais convincente. Uns rezaram, outros se embebedaram; mergulharam alguns em nefanda, derradeira paixão. As mães, porém, ficaram acordadas para preparar com esmero as provisões para a viagem, deram banho nas crianças, arrumaram as malas, e, ao alvorecer, o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar. Elas não esqueceram as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, nem todas as pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem. Será que vocês não fariam o mesmo? Se estivessem para ser mortos, amanhã, junto com seus filhos, será que hoje não lhes dariam de comer?”

Todas as pessoas, incluindo famílias inteiras, levadas à Auschwitz, lá estavam porque haviam sido presas pelos fascitas ou pelos nazistas ou porque haviam sido delatadas. Levi conta que ao chegar no campo de concentração em janeiro de 1944, os judeus italianos eram em torno de 150 e algumas semanas depois já passavam de 600. Após chegarem ao destino, trazidos em trens lotados de pessoas em condições sobre-humanas, as famílias eram imediatamente separadas para sempre; as mulheres e crianças enviadas para um campo próximo; os homens sãos e jovens separados dos doentes e idosos, e estes dois últimos, já que não apresentavam condições aptas para o trabalho, enviados para as câmaras de gás. Tiveram seus cabelos raspados, seus pertences tomados, perderam seus nomes e receberam um número para identificação, ficaram dias e dias nus, em pé e com uma sede desesperadora, pois não receberam uma gota de água.

“E lá recebemos as primeiras pancadas, o que foi tão novo e absurdo que não chegamos a sentir dor, nem no corpo nem na alma.”

Além dos italianos, foram levados para o campo prisioneiros polonoses, ingleses, húngaros, holandeses, franceses, e de inúmeras outras nacionalidades europeias, o que fazia de Auschwitz uma imensa babel. Em sua maioria, naturalmente não falavam alemão e, por conta disso, não entendiam as ordens e xingamentos dos alemães, o que os levava a apanhar quase com a mesma frequência que alguém pisca.

“Aqui, a confusão das línguas é um elemento constante da nossa maneira de viver; a gente fica no meio de uma perpétua babel, na qual todos berram ordens e ameaças em línguas nunca antes ouvidas, e ai de quem não entende logo o sentido. Aqui ninguém tem tempo, ninguém tem paciência, ninguém te dá ouvidos; nós, os recém-chegados, instintivamente nos juntamos nos cantos contra as paredes, como um rebanho de ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas.”

Nos campos de concentração em Auschwitz os prisioneiros tinham direito à um par de roupas que deveria servir-lhes tanto para o frio quanto para o calor; uma cama de madeira, montada em diversos beliches, com um fino colchão de palha que deveria ser compartilhada com outro prisioneiro, ninguém dormia sozinho, e o espaço entre um beliche e outro era tão pequeno que não cabia nem uma pessoa em pé; um par de tamancos de madeira sem numeração, escolhidos na sorte, tão pesados e duros que em pouco tempo todos os prisioneiros se viam com os pés feridos e forçados a se adaptar às chagas que nunca sarariam; uma gamela para a sopa e uma colher; um pão duro pela manhã e uma sopa rala à noite; e uma jornada exaustiva, de mais de 10 horas por dia, de trabalho pesado. Eram obrigados a acostumarem-se com a lama e com a aparência degradante que adquiriram: olhos fundos, rosto encovado e costelas  aparentes.

Levi relata que o maior inimigo dos prisioneiros não eram os alemães, nem a fome, nem mesmo a prisão em si, mas o frio, que era tão agressivo que chegavam a esquecer da fome arrasadora que sentiam. Nos primeiros dias do inverno, centenas de prisioneiros faleciam e logo tinham suas roupas “furtadas” para que outros pudessem aproveitá-las na tentativa de manterem-se aquecidos, mesmo que fosse insuficiente, já que não tinham sequer cobertores e podiam contar apenas com a fina roupa do corpo.

Quando ficavam doentes, e era absolutamente certo que ficariam, contavam com a sorte de passarem pela avaliação dos médicos e estes concluírem que realmente necessitavam de cuidados e possuíam chances de se recuperar, ou com a astúcia de quem já estava acostumado com o campo e tinha coragem de se aventurar em driblar os médicos, pois se fossem considerados “saudáveis” eram enviados de volta para o trabalho e caso diagnosticados com doença terminal, imediatamente enviados para as câmaras de gás. Doença contagiosa e terminal no campo de concentração era o que mais se via. Uma vez aceitos no Ka-be (como os prisioneiros chamavam a enfermaria), tinham acesso a uma cama só para eles e podiam, enfim, descansar, permanecendo lá pelo período máximo de dois meses, de acordo com a necessidade de cada doença, a fim de serem “devidamente” tratados. Ao final dos dois meses, quem não havia se recuperado era também enviado para o extermínio.

Com o fim do inverno, o inimigo era outro: a fome. O trabalho árduo que desempenhavam no campo exigia no mínimo uma alimentação razoável, mas tudo o que tinham eram algumas rações de pão e uma sopa rala todos os dias, faça chuva ou faça sol, sempre a sopa. Em decorrência disso, os prisioneiros criaram uma hierarquia interna, onde mesmo sabendo que iriam morrer, os prisioneiros contribuíam para a manutenção do cárcere ou para uma ração de comida a mais.

Um dado diverso do obtido nos filmes sobre o Holocausto, pois estes em sua maioria mostram a união e irmandade entre os prisioneiros, já Levi revela que o inverso também acontecia. Os roubos eram constantes nos campos, os prisioneiros tratavam uns aos outros com hostilidade e poucos podiam considerar que tinham amigos ou pessoas em quem confiar. Levi e todos os demais eram obrigados a levar seus pertences para onde quer que fossem, até mesmo para o banho, e deviam dormir abraçados à eles, pois qualquer descuido implicaria no roubo dos objetos e estes não eram de forma alguma repostos pelos alemães ou pelos soviéticos, que realizavam a supervisão dos campos. Caso tivesse a gamela ou a colher furtadas, por exemplo, o prisioneiro não conseguiria comer, pois os alemães não poderiam saber que as tinham perdido e não era permitido emprestar.

Levi permaneceu no campo de extermínio de Auschwitz por um ano, até que o exército russo invadiu aquela região e obrigou os alemães a evacuarem os campos, abandonando ali todos os prisioneiros. Após a invasão, alguns presos fugiram, outros foram mortos pelo exército russo ou por doença, e outros, incluindo Levi, permaneceram no campo a fim de esconderem-se e encontrarem ali algum resquício de humanidade e condições mínimas de sobrevivência até que soubessem para onde ir e o que fazer com a libertação. No total, dos mais de 650 italianos presos com Levi, apenas 20 sobreviveram.

A desumanização presente em Auschwitz serviu para destruir a resistência individual e coletiva e manter, com sucesso, o sistema repressor criado por Hitler. Em pouco tempo os homens perderam a sua dignidade, a força e vontade de lutar por suas vidas. Alguns decidiram que iriam morrer com a mesma dignidade com a qual viveram antes do confinamento, e outros, ainda que sobrevivessem, a lembrança de como eram suas vidas antes dos campos de concentração já não existia.

É isto um homem? é um relato perturbador de alguém que lutou arduamente contra a desumanização, para não se tornar o animal que os alemães pensavam que eles eram e manter a sanidade mental, ainda que não possuísse nenhuma esperança de sair vivo do massacre. Como o próprio autor afirma no livro, não existe vocabulário humano que possa descrever o que os prisioneiros sentiram ao chegar em Auschwitz e tampouco que o que foi o Holocausto. A obra nos leva a questões como “Quem somos nós?”, “Do que somos capazes?”, “É possível existir tanta maldade e crueldade em um só homem?”, “Quanto existe de humanidade em cada um de nós?”. Levi, neste livro, é capaz de provar que em meio ao horror é possível descobrir o que nos torna humanos e por causa disso, encontrar um meio de lutar pela vida.

Um relato do nível de crueldade a que o homem é capaz de atingir, mas sem a incitação de violência ou ódio. Apenas a história sendo contada como ela é e como aconteceu. Uma leitura necessária sobre um dos períodos mais dolorosos, obscuros e atrozes que a humanidade já presenciou.

“Não sabemos, porém, para onde vamos. Talvez sobrevivamos às doenças e escapemos às seleções, talvez aguentemos o trabalho e a fome que nos consomem, mas, e depois? Aqui, longe (por enquanto) das blasfêmias e das pancadas, podemos retornar dentro de nós mesmos e refletir, e torna-se claro, então, que voltaremos. Viajamos até aqui nos vagões chumbados; vimos partir rumo ao nada nossas mulheres e nossas crianças; nós, feito escravos, marchamos cem vezes, ida e volta, para a nossa fadiga, apagados na alma antes que pela morte anônima. Não voltaremos. Ninguém deve sair daqui; poderia levar ao mundo, junto com a marca gravada na carne, a má nova daquilo que, em Auschwitz, o homem chegou a fazer do homem.”

Ano: 2013
Editora: Rocco
Número de páginas: 256
Nota: 5/5

Resenha por: Camila

Mês literário: Fevereiro

Nessa segunda edição da categoria “Mês literário” nós duas acabamos lendo uma menor quantidade de livros, porém uma quantidade maior de páginas… Os números ao lado são as notas que atribuímos às leituras.

Seja bem vindo para acompanhar nossa leitura mensal! Se tiver curiosidade para saber mais sobre algum livro, escreva nos comentários e faça duas leitoras felizes 🙂

Acompanhe também nossos perfis no Skoob (que estão linkados em nossos nomes).


Camila

  1. O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (4/5)
  2. Extraordinário, R. J. Palacio (4/5)
  3. É isto um homem?, Primo Levi (5/5)
  4. Genesis and Catastrophe, Roald Dahl (4/5)
  5. Dom Casmurro, Machado de Assis (4/5)
  6. C.S. Lewis – O mais relutante dos convertidos, David Downing (3/5)

Munique

  1. Extraordinário, R. J. Palacio (4/5)
  2. Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe (4.5/5)
  3. O grande Gastby, F. Scott Fitzgerald (4.5/5)
  4. Weird Things Customers Say in Bookshops, Jen Campbell (3/5)
  5. Gramática expositiva do chão, Manoel de Barros (3.5/5)
  6. More Weird Things Customers Say in Bookshops, Jen Campbell (2.5/5)
  7. A guerra dos tronos, George Martin (4.5/5)
  8. Primeiro amor, Ivan Turguêniev (3.5/5)
  9. Estranherismo, Zack Magiezi (3.5/5)
  10. Matéria de poesia, Manoel de Barros (3.5/5)

Resenha “Extraordinário”

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“Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto comum, em que ninguém nunca prestasse atenção. Pediria para poder andar na rua sem que as pessoas me vissem e depois fingissem olhar para o lado. Sabe o que eu acho? A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma.”

Extraordinário é sobre a história linda e tocante de August Pullman, um garoto de 10 anos que nasceu com uma síndrome derivada de uma anomalia genética rara, cuja maior consequência é uma deformidade facial que carregará para o resto da vida, mesmo após já ter feito incontáveis plásticas ao longo de seus 10 anos.

Auggie, como é carinhosamente chamado pela família e pelos poucos amigos que possui no início da trama, é um garoto engraçado, inteligente, corajoso e muito amoroso. A obra se desenvolve à partir da decisão de seus pais de mandá-lo para a escola pela primeira vez, já que até então ele era educado em casa pela mãe. A princípio Auggie resiste à ideia, com medo do que irá enfrentar no novo ambiente, mas após visitar a escola e conhecer alguns dos alunos encarregados de apresentá-lo ao seu novo local de estudo, aceita o desafio, mudando sua vida radicalmente.

Como já esperado, o primeiro de ano de Auggie na escola não é nada fácil. Ele, que – mesmo sabendo ser impossível – pretendia passar despercebido por todos, é logo notado e se torna alvo de brincadeiras maldosas, ao mesmo tempo em que é ignorado pelos alunos da escola que não querem se aproximar nem ser tocados por ele, seja por maldade ou por medo, exceto  por Summer, que incomodada com o que os outros alunos fazem com Auggie e por vê-lo almoçando sozinho, se aproxima e imediatamente cria um laço de amizade muito forte com ele, fazendo com que todos os seus amigo se afastem dela também.

“Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil.”

O livro é dividido em 8 partes narradas pelo próprio August e pelas pessoas mais próximas dele, começando pela irmã Olivia, ou Via, como todas a chamam, em que cada uma delas descreve a sua visão e o sentimento com relação à Auggie, o que nos faz ter uma percepção ainda mais intensa da vida dele e de todos à sua volta.

Mesmo com a deformidade e necessitando de cuidados especiais por ter uma saúde limitada, August não é uma criança deprimida por conta de sua condição física, pelo contrário, é feliz, bem-humorado, forte, consciente e, apesar de, como todo ser humano, chorar algumas vezes, não se faz de coitado em momento algum. Tem uma família que o ama muito, o defende e o preparou para o preconceito, a maldade e o bullying que seria obrigado a suportar no convívio em sociedade.

Nessa obra extremamente cativante, aprendemos com Auggie sobre superação, amizade e a enxergar a vida com sensibilidade e o próximo com respeito, gentileza e igualdade. Ao longo do caminho ele encontra pessoas tão especiais quanto ele que o apoiam e passam a amá-lo pelo que ele é e principalmente por quem ele é. Uma história encantadora que, ao final, nos deixa com saudades da companhia do Extraordinário August Pullman e com esperança de um mundo melhor, no qual a regra de vida de todas as pessoas é “sempre tentar ser um pouco mais gentil que o necessário”.

A obra foi inspirada após um episódio presenciado pela autora norte americana R. J. Palacio, na companhia de seus dois filhos, de 3 e 10 anos. Ao entrarem em uma sorveteria e se depararem com uma garotinha com  grave deformidade facial, seus dois filhos tiveram uma reação negativa, fazendo com que Palacio logo os tirasse de perto, não por causa deles, mas para não magoar a menina, não conseguindo deixar de pensar nela depois, em como seria sua vida e de sua família, mesmo que jamais a tenha visto novamente.

Para nossa felicidade, essa história fascinante virou filme e estreia em 2017 nos cinemas brasileiros. O filme homônimo será estrelado por Jacob Tremblay (O Quarto de Jack), no papel de Auggie, Julia Roberts e Owen Wilson. Corre que ainda dá tempo de ler o livro! 🙂

“Acho que devia haver uma regra que determinasse que todas as pessoas do mundo tinham que ser aplaudidas de pé pelo menos uma vez na vida.”

Ano:2013
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 320
Nota: 4/5

Comentários no Clube do Livro

“O Auggie mudou meu jeito de ver a vida.” – Munique

“Esse livro é uma grande lição para todas as idades.”Pati Belmonte

“Como o título diz, é um livro extraordinário. Me apaixonei pela história!” – Gi

“Para mim, o Auggie é uma das pessoas mais bonitas do mundo. Queria ser amiga dele.” – Juliana Justo

“De cara me apaixonei pelo August por ele ser uma criança especial, não pela aparência, mas pelo bom humor, via o quanto as pessoas se incomodavam ou se assustavam com sua aparência, na verdade ele sofria o tal de bulling, mas encarava tudo numa boa porque ele era muito amado, a aparência não o fazia se sentir um coitado.”  Ely Penha

Resenha por: Camila

Resenha “Mestre Gil de Ham”

 

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Eu sou uma fã incontestável de J. R. R. Tolkien e de todo o universo criado por ele. O Professor, como é chamado pelos fãs, nasceu em 3 de janeiro de 1892 e teve uma brilhante carreira acadêmica. Conhecido por obras como “O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion”, Tolkien escreveu “Mestre Gil de Ham” com o único intuito de entreter seus filhos. Mesmo sendo um conto infantil,  a obra é sofisticada e indicada para leitores de todas as idades.

O livro, escrito em 1947 e publicado em 1949, conta a estória de Mestre Gil, um fazendeiro dono de um cachorro falante e medroso, Garm, que após enfrentar e afastar um gigante do condado, cai nas graças do povo e é escolhido para enfrentar o dragão Chrysophylax. O que ninguém sabe é que Mestre Gil afastou o gigante de uma forma bastante inusitada e nunca foi herói ou corajoso, muito pelo contrário. Mas, não querendo se passar por covarde e, principalmente, por gostar de sua tranquilidade e da vida pacata, decide partir em busca do dragão numa grande aventura com Garm e sua égua cinzenta, munido da espada Caudimordax, para ter sua paz de volta.

Mestre Gil, que possuía pouca coragem e nenhuma habilidade de combate, obtém êxito em suas batalhas, inclusive com o dragão, unicamente através de diálogos inteligentes e sarcásticos e, claro, da sorte, conquistando grande fortuna.

Uma estória divertida, simpática, engraçada, que apresenta uma leitura rápida e fácil, sem a complexidade típica das obras de Tolkien, cujos personagens possuem diversos costumes e gostos que nos lembram outros personagens marcantes do autor, como os adoráveis Hobbits.

A trama, mesmo que não sendo ambientada na Terra Média, é recomendada principalmente para introduzir o leitor ao universo de Tolkien e, apesar de curta, flui de forma bastante agradável. Livro para ler em um dia! =)

Ano: 2014
Editora: Martins Fontes
Número de páginas: 102
Nota: 3/5

Resenha por: Camila

Dica de série: “The OA”

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Este post não é uma resenha, é só uma dica dessa série que me tocou profundamente. Logo no primeiro episódio já me vi totalmente imersa na história de OA, encantada com os cenários, com a fotografia e produção. Uma ficção científica com uma boa dose de sobrenatural.

Lendo algumas críticas na internet, notei que as impressões sobre a série se dividem entre “pura decepção” e “uma experiência transcendental, fascinante e tocante”. Eu fico com a segunda, sem sombra de dúvidas. Essa série vai explodir sua mente

Você vai se deparar com um labirinto de emoções, um enigma, muitas dúvidas, cenas belíssimas, personagens muito fortes e muitos motivos para não se sentir sozinho.

Só pra contextualizar, storyline da série é a seguinte:

“Tendo desaparecido sete anos atrás, a previamente cega Prairie volta para casa, agora com 20 e poucos anos e com a visão recuperada. Enquanto muitos acreditam que ela seja um milagre, outros se preocupam que ela possa ser perigosa”

Por enquanto somente a primeira temporada está disponível, com oito episódios extremamente envolventes e emocionantes. Já está confirmada a segunda pela Netflix.

Os criadores são Brit Marling, que será também a atriz protagonista, e o diretor Zal Batmanglij. Abaixo você pode conferir o trailer da série.

Se quiser ler uma resenha muito boa, mas com vários spoilers, sugiro a do blog Mix de séries.

Post por: Munique

Resenha “O grande Gatsby”

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Francis Scott Fitzgerald, autor norte americano nascido em 1896, inclui em sua bibliografia contos e romances da geração chamada “geração perdida” na literatura americana, que foram os autores que acabaram indo para a Europa. O autor é conhecido por suas críticas aos ‘endinheirados’ da era do jazz e acaba por retratar em suas obras questões pessoais e sociais com um requinte que é só dele.

Ao falar em romance, o mais famoso e conhecido do autor é o lindíssimo “O grande Gatsby”, lançado no ano de 1925. O romance pode ser encarado, até certo ponto, como uma autobiografia do autor.

A obra inicia com o narrador Nick nos contando sobre os acontecimentos que o levaram a conhecer Gatsby, o excêntrico novo rico de West Egg, um homem misteriosos e ‘suspeito’ que possui uma casa deslumbrante e gosta de dar festas gigantescas aos finais de semana, atraindo uma quantidade enorme de pessoas. O personagem principal só aparecerá no terceiro capítulo e, quando acontece, já estamos bastante envolvidos com sua história. Riqueza, jazz, gim (que é uma bebida quase proibida na época), sexo, carros e mansões colossais são as obsessões mais presentes na obra.

Nick é primo de Daisy. Daisy é casada com Tom. Jordan é amiga do casal. Gatsby ama imensurávelmente a Daisy. Tais personagens são utilizados para criar um retrato da época, cada qual a seu modo, representando as questões sociais, as máscaras, a conveniência, a futilidade e até mesmo irracionalidade de um tipo específico de sociedade. Gatsby funciona como um contraponto extremamente romântico dentro da narrativa, mas guarda ainda inúmeros traços de futilidade – que aqui ganha ares de profundidade – e usa também suas máscaras, afim de se tornar uma espécie de personagem de si mesmo e não transparecer seus reais sentimentos e valores.

“Gatsby, que representava tudo aquilo que me causava genuíno desprezo. Se a personalidade é uma série contínua de gestos bem-sucedidos, então havia algo de grandioso naquele homem, certa sensibilidade exaltada às promessas da vida, como se ele guardasse alguma relação com aquelas máquinas intrincadas que registram terremotos a quilômetros de distância.”

James Gatz é seu nome de nascimento. Sua origem é pobre e difícil, mas haverá uma força que o impulsionará a crescer na vida e se tornar o personagem que nós conhecemos e amamos. “Meu velho”, é a expressão carinhosa e caricata que Jay tem para tratar as pessoas. Um personagem que fugiu de uma existência medíocre motivado pelo amor e que planejou a vida inteira para alcançar o patamar – social – necessário para amar da ‘maneira apropriada’. Gastby vai para a guerra afim de conquistar algumas condecorações e visibilidade. Seu romantismo obsessivo é a única coisa que se opõe ao ilusionismo da riqueza exacerbada que regia o momento.

“Suponho que ele já tinha escolhido o nome havia tempos, mesmo então. Seus pais eram fazendeiros preguiçosos e fracassados – sua imaginação nunca os reconhecera como pais. A verdade era que Jay Gatsby de West Egg havia saído da própria concepção platônica de si mesmo. Ele era um filho de Deus…” 

Daisy, por outro lado, será uma personagem fraca, carregada de futilidades, que passa por cima de seus sentimentos por conta das convenções sociais e que não cativa o leitor.

O que mais marca na obra é o fato de Gatsby viver por alguns anos rodeado por uma quantidade enorme de pessoas e ter um desfecho solitário. A única aspiração de sua vida era ser visto por Daisy e poder dar a ela o mais profundo amor. Nick acaba se tornando seu único amigo. Em nome do amor, perde tudo o que havia conquistado e é levado a um final trágico, carregado de emoção. Um personagem que possuía tudo e não tinha nada.

No capítulo final a carga emocional é enorme, há a denúncia absoluta de como eram feitas as relações na época, tudo pelo interesse e pelo bem pessoal, uma sociedade repleta de pessoas egoístas e mesquinhas, que busca somente status e que faz dos arranjos sociais sua força. Até mesmo o pai do personagem via nele um degrau para ascensão social, de modo que a única foto que possuía ‘do filho’ era, na verdade, uma foto da mansão de Gatsby.

Esta obra mostra, mais uma vez, o poder que um clássico tem de se manter atualizado e atemporal, evocando questões de grandeza dentro do leitor.

“Enquanto estava ali, remoendo esse velho e desconhecido mundo, pensei no assombro de Gatsby ao ver pela primeira vez a luz verde da extremidade do cais de Daisy. Ele havia percorrido um caminho enorme até chegar a esse jardim azulado, e seu sonho lhe deve ter parecido tão próximo que dificilmente o deixaria escapar. O que ele não sabia é que já estava fora de seu alcance.”

Em 2013, foi lançado o filme baseado na obra estrelado pelo ~ MARAVILHOSO ~ Leonardo DiCaprio

Ano: 2011
Editora: Pinguim – Companhia
Número de páginas: 256
Nota: 4.5/5

Resenha por: Munique

Dica musical: Fiona Apple

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Essa semana conheci o talento da cantora norte americana Fiona Apple e, desde que ouvi pela primeira vez, é ela quem vem embalando meus dias ❤
(Talvez pra muitos ela já não seja novidade, mas pra mim foi um bom presente, por isso vim dividir com aqueles que ainda não tiveram o prazer de conhecê-la.)

A cantora com menos de 20 anos e já havia ganhado um Grammy, só pra ter idéia do talento da moça… O que mais marca em suas canções, além das melodias delirosas e envolventes, é o fato de ela compor músicas com temática psicológica, nos convidando a olhar pra nós mesmos e pro mundo através de suas canções 🙂

01b8e396e8e58d8ef7dd109ea6ef5780Aos 11 anos, Fiona teve a terrível experiência de ser violentada por um desconhecido que vivia em seu prédio e, obviamente, o fato a traumatizou e gerou consequências bastante complicadas ao longo de sua vida, que foi cheia de problemas de socialização, transtornos compulsivos, alimentares e psicológicos, de modo geral. Porém, a garota usou a música para se reencontrar e fazer sua voz ouvida no mundo e, aos 17 anos, se jogou de cabeça nesse mundo e fez da música sua vida e seu trabalho.

Hoje, com 39 anos, Fiona já lançou 4 álbuns, sendo eles: Tidal (1996), When the Pawn… (1999), Extraordinary Machine (2015) e The Idler Wheel (2012).

Aproveite o final de semana pra conhecer música boa, ou pra ouvir de novo e de novo, caso já conheça 😉

Post por: Munique

Precisamos falar sobre “Santa Clarita Diet”

Olá, queridos!

Pra você, que sobreviveu ao primeiro episódio, e também pra você que arrepiou todinho com a quantidade épica de vômito nos primeiros minutos da série e fugiu dela como se não houvesse amanhã, precisamos conversar sobre o lançamento da Netflix, “Santa Clarita Diet“.


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A série original da Netflix foi lançada no dia 03 de Fevereiro e, desde então, tem levantado polêmica nas redes, gerando comentários muito negativos ou muito positivos, por conta do choque que causa. A série é estrelada pela maravilhosa Drew Barrymore

O criador Victor Fresco não economizou nem um pouco em termos de choque e esquisitice. Sua criatividade assombra não com um terror real, mas por causar repulsa e desconforto. A primeira cena chocante da série é a cena em que Sheila “passa mal” durante a visita de um casal a uma das casas que o casal tentava vender. A quantidade de vômito expelida por ela pode ser comparada à quantidade de sangue que Tarantino gosta de usar em seus filmes. E olha que o rapaz capricha no quesito sangue! 

Após essa primeira cena, o casal Sheila e Joel se vêem diante de uma situação totalmente nova em suas vidas. A mulher começa a ter um apetite sexual mais aguçado, atende a seus instintos mais primitivos e desenvolve uma dieta à base de muita proteína. A esquisitice só vai aumentando a cada episódio e, por mais nojenta que seja, precisei assistir até o final, principalmente para tentar entender o que estava acontecendo, ver se aquela quantidade homérica de vômito e sangue teria uma finalidade, ou se era só pra ser a série mais bizarra já produzida. Uma versão cômica de TWD, com uma mamãe zumbi muito cativante.

Acima de tudo, é preciso ressaltar que a série é muito bem produzida, a fotografia é excelente e tem uma boa trilha sonora.

No final, preciso confessar, me afeiçoei muito ao casal. A dupla se torna cada vez mais maluca e excêntrica. A série é muito trash e bizarra sim, mas tem um humor leve e em vários momentos em que a relação entre marido e mulher, mãe e filha e mesmo na amizade de Abby com o vizinho Eric, deixa lições para se aprender, sobre amar o outro independente dos defeitos ou bizarrices. Inclusive, os vizinhos do casal que aparentemente levam suas vidas ‘normais’, não conseguem demonstrar nem de perto o afeto e companheirismo da família da mamãe zumbi.

A primeira temporada conta com 10 episódios de 29min. cada e deixa o final em aberto para a temporada que virá, com um episódio excitante e divertido. O retorno está previsto para o final de 2017, entre os meses de Outubro e Novembro. O gênero indicado é comédia, mas pode se enquadrar também em ‘excêntrica’, ‘humor absurdo’, ‘thriller‘…

Aos que tiverem estômago pra ver muita gosma, sangue e dedos servindo de snack, é uma série que vale a pena conhecer. 🙂

Lista de episódios: 

  1. Morcego ou macaco?
  2. Não podemos matar pessoas
  3. Podemos matar pessoas
  4. O turista sexual
  5. Gente comendo gente
  6. Atenção aos detalhes
  7. Será estranho ou desrespeitoso?
  8. Quanto vômito?
  9. O livro
  10. Baka, bile e tacos de beisebol

Nota: 3.5/5

Trailer:

Post por: Munique

Resenha “Quarto”

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“No Quarto a gente sabia como tudo se chamava, mas no mundo tem tanta coisa que as pessoas nem sabem os nomes.”

Quarto é uma obra da escritora irlandesa Emma Donoghue, que inspirou o filme “O Quarto de Jack”, com 4 indicações ao Oscar, rendendo à Bire Larson o prêmio de melhor atriz.

O drama vivido por Jack e sua mãe provoca um turbilhão de sentimentos no leitor. Por isso, deve ser lido de coração aberto e preparado para uma história triste e dolorida, mas comovente e que desperta em quem está lendo a vontade de sorrir para o mundo, aproveitar tudo o que ele tem para oferecer e valorizar a vida de forma única.

A história é narrada em primeira pessoa por Jack, um menino que acaba de completar 5 anos, fala errado e sempre viveu trancado em um quarto, relacionando-se unicamente com sua mãe, sem nunca ter visto a luz do sol, a chuva ou a neve, à não ser na televisão, nem mesmo tido contato com qualquer outra pessoa além da Mãe. Logo no início da trama, nos  impressionamos com a inocência do menino, pela facilidade com que ele é agradado, pelas coisas simples que ele admira e como ele é feliz mesmo com tão pouco.

A Mãe, como é chamada durante toda a narrativa, foi sequestrada aos 19 anos pelo Velho Nick, – Jack não sabe o nome dele, mas o chama assim porque o relaciona com um homem que viu na televisão, que só aparece durante a noite e é chamado de velho Nick – um homem perturbado mentalmente, e mantida por 7 anos em um quarto, sendo abusada sexualmente durante todo esse tempo.

Dos abusos sofridos por ela, nasceu Jack. A Mãe, que não tinha nada a oferecer ao filho, à não ser o seu amor e os poucos recursos concedidos e permitidos pelo Velho Nick, como uma televisão, alguns móveis e utensílios velhos e uma alimentação bastante regulada, criou um mundo para Jack. Assim, tudo o que ele conhece é o que foi passado por sua mãe para protege-lo do sofrimento e confinamento.

No decorrer da trama, percebemos como o conhecimento de Jack é limitado e restrito. Ele acredita que o mundo é apenas o Quarto e tudo o que ele vê na televisão, principalmente os desenhos como “Bob Esponja” e “Dora, a Aventureira”, só existe ali. Nada existe de verdade. É interessante perceber que por não conhecer o mundo exterior, nunca ter ido à praia ou sentido o vento, nunca ter visto outras pessoas, não saber o que é ter avós, primos, família, amigos, ir à escola ou brincar, Jack não sente falta de nada disso. Sua vida apenas com a Mãe é perfeita. É a vida que ele conhece e é a única vida que ele quer ter!

No entanto, a história muda quando a Mãe, que conhece o mundo lá fora, decide revelar a Jack que tudo o que ele vê na televisão realmente existe e está fora do quarto. Ela diz a ele que precisam bolar um plano para fugir do “inferno”. No início, Jack fica apavorado, não quer fugir, se recusa a escutar o plano da mãe ou acreditar que ela esteja dizendo a verdade e chora muito, mas por fim é convencido e como ele é “temeroso (temor + corajoso), consegue libertar a si e a mãe do cativeiro onde vivem.

A partir daí, um momento que deveria ser o fim de um grande pesadelo, na verdade se revela a continuação de uma vida cheia de dificuldades. Agora “livres”, a Mãe tem que reaprender a viver em sociedade e em família, e Jack, que passa a ser alvo de curiosidade e notícia nos jornais como o menino “corcunda”, “desnutrido” e que “desce as escadas como um macaco”, tem que aprender a conviver com outras pessoas além da mãe. Por sua vez, a mãe passa a ser alvo de julgamentos, tendo que responder questões como porque não tomou outras alternativas para que Jack não tivesse que ser criado em cativeiro, quando ela sequer imaginara que ele pudesse viver longe dela, seja qual fosse a circunstância a que estivessem submetidos.

A vida fora do Quarto, que supostamente deveria ser feliz e voltar ao “normal”, trouxe para a Mãe uma profunda “depressão”. A angústia, o desânimo, a tristeza, exaustão e todo o sofrimento que está passando é transmitido com tanta profundidade ao leitor, especialmente porque tudo isso é narrado sob a visão inocente de Jack, que é impossível não nos sensibilizarmos com a sua dor e compreender com a mesma inquietude todos os sentimentos que a vida novamente em sociedade despertaram nela.

Já Jack, inicialmente não tem a menor vontade de falar com outras pessoas ou de ficar sozinho com elas sem a mãe, pedindo todo o tempo para voltar para o quarto.

“Em todo canto tinha pessoas que não eram minhas amigas.”

Nesse momento, podemos comparar Jack com Kaspar Hauser, um rapaz que apareceu numa cidade da Alemanha aos 15 anos, apenas com uma carta na qual explicava parte de sua história, descobrindo-se que ele teria vivido até então numa cela, sem qualquer contato verbal com nenhuma outra pessoa, de forma que não conseguia andar ou se expressar em nenhum idioma, nem mesmo por gestos. Posteriormente, ele aprendeu a andar e falar como uma criança, mas a exclusão social a que foi submetido jamais permitiu  que desenvolvesse conceitos e raciocínios como os seres humanos que sempre viveram em contato com outros seres humanos, não permitindo, por exemplo, que Hauser pudesse diferenciar sonhos de realidade. Assim como Hauser, Jack sentia que a sociedade era apenas um cativeiro maior.

Quarto é uma lição de vida emocionante, extremamente tocante e sensível. Rica em conceitos de Antropologia, nos mostra como é essencial o convívio em sociedade para que desenvolvamos todas as características, sentimentos e sensações do ser humano. Donoghue nos ensina que atividades como falar, andar, pensar e, até mesmo as emoções, não são intrínsecas e inerentes ao homem, mas são ensinadas e desenvolvidas, comprovando que tudo o que sabemos é porque vimos outras pessoas fazendo antes e aprendemos com elas.

Mesmo com um tema cruel, é uma história comovente na medida certa que retrata o relacionamento de uma mãe e um filho marcados por uma tragédia incompreensível, mas que através de Jack encontram forças para enfrentar o trauma, uma vez que o pequeno apesar da dificuldade em aceitar e entender a liberdade antes desconhecida, se mostra capaz de ajudar a mãe a manter a sanidade para que juntos, como sempre, aprendam a viver no mundo exterior com a mesma garra que sobreviveram ao quarto.

“No mundo eu noto que as pessoas vivem quase sempre tensas e não têm tempo. Até a vovó sempre diz isso, mas ela e o Vopô não têm emprego, então não sei como as pessoas empregadas fazem o trabalho e toda a vida também. No Quarto, eu e a Mãe tínhamos tempo pra tudo. Acho que o tempo é espalhado muito fino em cima do mundo todo, feito manteiga, nas ruas e nas casas e nas pracinhas e nas lojas, por isso só tem um tiquinho de tempo espalhado em cada lugar, e aí todo mundo tem que correr pro pedaço seguinte. Além disso, em todo lugar que eu olho para as crianças, os adultos quase todos parecem não gostar delas, nem mesmo os pais. Eles chamam os filhos de lindos e tão bonitinhos, mandam as crianças fazerem tudo de novo pra eles poderem tirar fotos, mas não querem de verdade brincar com elas, preferem tomar café conversando com outros adultos. Às vezes tem um bebezinho chorando e a Mãe dele nem ouve.”

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Ano: 2011
Editora: Verus
Número de páginas: 350
Nota: 5/5

Resenha por: Camila

 

Eu vim passear

Conheci essa música na última Glocal de Janeiro e virou chiclete no meu fone ❤

Todas as músicas da Dingo Bells valem a pena, mas “Eu vim passear” e “Dinossauros” são as mais gostosas e que geram uns pensamentos bons, sabe?! Esse clipe é uma delícia pros olhos e ouvidos.

Dica pra animar essa quarta feira cinzenta 🙂

Post por: Munique