Resenha “O sol é para todos”

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“Só existe um tipo de gente: gente!”

O sol é para todos, da autora norte americana Harper Lee, ganhadora do prêmio Pulitzer, publicado em 1960 e considerado um dos clássicos mais importantes do século XX. Ambientada na pequena Maycomb, no estado do Alabama, no início dos anos 1930, a estória retrata a forte presença do racismo no sul dos Estados Unidos, onde mesmo após o fim da escravidão, a temática segregação e racismo ainda era predominante.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, Scout, a filha de Atticus Finch, de apenas 6 anos, nos apresenta uma Maycomb rural e pacata, narrando sua rotina na companhia do irmão Jem, da encantadora governanta, Calpurnia, que é negra, de seu pai, um advogado muito respeitado, e de Dill, sobrinho da senhorita Rachel – vizinha de Scout – que sempre passa as férias de verão na casa da tia e embarca nas aventuras de Scout e Jem.

A narrativa se desenvolve principalmente em torno da vida das personagens que fazem parte do dia a dia de Scout. Boo Radley, seu vizinho recluso, que ela, Jem e Dill, apesar de terem muito medo de Boo, armam diversos planos para tentar vê-lo e finalmente descobrirem se ele é tão assustador como imaginam. Atticus Finch, um senhor de 50 anos, viúvo, que se dedica unicamente aos filhos, à advocacia e aos livros é sem dúvidas um dos personagens mais marcantes de “O sol é para todos”. É um ser humano gentil, íntegro, que sempre acreditou e lutou pela justiça e, desde sempre, ensinou os filhos a tratarem as pessoas com respeito e cordialidade, seja qual for a cor da pele e, principalmente, a lutarem pelo que acreditam e acham certo, independente de qualquer acusação que possam sofrer da sociedade.

Através da perspectiva inocente, sensível e amável de Scout, vemos como a sociedade sulista dos Estados Unidos, que podia ser doce e gentil com os brancos, era extremamente racista e enxergava os negros como sujeitos pecadores e indignos de qualquer compaixão ou confiança, servindo apenas como criados, criando diversas dúvidas em Scout, que não entendia porque todos os brancos à sua volta referiam-se aos negros com tanto desprezo.

Já na segunda parte do livro, temos Tom Robinson, um negro de 27 anos, casado e pai de três filhos, acusado de estuprar uma moça branca. Atticus Finch é designado para defender Tom e, à partir daí, Scout começa a ver sua vida mudar, passando a ser alvo de provocações e desprezo, por conta de ter um pai que defende um negro. Aqui, vemos o geniozinho forte da menina que não aceita as provocações e, muitas vezes, “parte pra briga”. Depois questiona Atticus sobre o motivo pelo qual a população de Maycomb não quer que ele defenda Tom.

Atticus, como ótimo advogado, mesmo sabendo que provavelmente estava lidando com uma causa já perdida, faz uso da lógica jurídica para construir seu caso e monta uma defesa inatacável para Tom. Reconstruindo todos os acontecimentos do suposto crime e, levando o júri, composto exclusivamente de brancos, a reviver todas as cenas e visualizar se Tom realmente seria capaz de estuprar uma moça conforme a descrição dos fatos feita pela acusação, dada a sua condição física.

Harper Lee, de maneira apaixonante e com seus personagens inesquecíveis, nos remete ao tempo em que não importava as qualidades pessoais de cada um, se eram pessoas honradas, honestas, íntegras, trabalhadoras, humildes e generosas, tudo era decidido de acordo com a cor da pele. O livro também relata, não raras vezes, a divisão entre pobres e ricos, velhos e jovens, negros e brancos, mostrando, ainda, a diferença de linguagem entre as diversas “classes” da época.

O título original do livro, To kill a mockingbird, faz referência a um pássaro, traduzido como “pássaro imitador”, que não existe no Brasil e é mencionado em certo trecho como um pássaro que nunca devemos matar, pois ele canta apenas para alegrar os corações.

“O sol é para todos” se tornou um dos meus livros preferidos. É um livro apaixonante, que nos ensina a enxergar o mundo com a inocência de uma criança, que não vê e nem entende a maldade do ser humano e, por isso, trata as pessoas apenas como pessoas, sem fazer qualquer distinção racial ou social. Durante a leitura, o leitor é tomado por diversos sentimentos: revolta, inconformismo, mas também compaixão, alegria e admiração por Scout, Jem, Atticus e todos os outros personagens marcantes e encantadores pelos quais nos apaixonamos ao longo das páginas. A leitura é leve, tranquila e obrigatória.

“Quando crescer, todos os dias você verá brancos ludibriando negros, mas deixe-me dizer uma coisa, e nunca se esqueça disso: sempre que um branco trata um negro desta forma, não importa quem seja ele, o seu grau de riqueza ou a linhagem de sua família, esse homem branco é lixo.”

Ano: 2015
Editora: José Olympio
Número de páginas: 364
Nota: 5/5

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Resenha por: Camila

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5 comentários sobre “Resenha “O sol é para todos”

  1. Renato José de Carvalho disse:

    Uma ótima sugestão de leitura, cabe aqui ressaltar importância da obra em uma geração que ainda continua perpetuando a desigualdade, mudando apenas a máscara! Bela resenha.

    Curtido por 2 pessoas

    • acamiladomiciano disse:

      Obrigada, Renato! Fico feliz que gostou da resenha 🙂
      Verdade! A obra é mesmo escrita há tantos anos, continua sendo muito atual e os mesmos preconceitos existem hoje, às vezes de forma “camuflada”, em nossa realidade. Esperamos vê-lo sempre por aqui. 🙂

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