Resenha “Vá, coloque um vigia”

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“Tenho certeza de que as coisas não foram sempre assim. As pessoas costumavam confiar umas nas outras por algum motivo, não me lembro por quê.”

Da mesma autora de “O sol é para todos” (1960), Harper Lee, Vá, coloque um vigia é o livro que marca o retorno da aclamada autora ao cenário literário. Cronologicamente, este foi escrito antes do primeiro publicado, mas acabou caindo nas mãos do leitor apenas 65 anos depois, sendo lançado no ano de 2015, registrando recordes de venda nos primeiros dias de publicação e acabando com o longo silêncio de uma das maiores autoras americanas do século XX.

A história nos apresenta o retorno da pequena heroína Scout* à sua terra natal, Maycomb, 20 anos depois da narrativa anterior. Jean Louise Finch, agora uma adulta formada e cheia de opiniões, deixa Maycomb para viver em Nova Iorque, porém, frequentemente visita seu pai, Atticus, em sua cidade natal. Muita coisa poderia ter mudado na vida da personagem, bem como em sua cidadezinha de origem, mas o que logo de início choca o leitor é a perda de um dos personagens mais importantes do primeiro romance de Harper Lee. A autora nos apresenta um novo personagem que será importante para o decorrer da narrativa, Hank, de modo que ele já fazia parte da infância de Scout, mas que ganha destaque apenas neste segundo momento.

Jean Louise fora criada numa casa onde aprendeu a respeitar a todos e a ver todas as pessoas como pessoas. Tratar negros e brancos com igual respeito e importância, porém, o desafio da personagem será lidar com a nova perspectiva social que vive Maycomb, por conta das leis e discursos segragacionistas vividos nos Estados Unidos em meados do ano de 1950. Tais questões dividem não só o país ou o estado do Alabama, mas será um divisor de águas também na residência Finch.

O conflito ideológico entre pai e filha pode chocar um pouco o leitor que acabou se encantando com o livro anterior. A Scout e o Atticus que conhecemos basicamente não existem mais. O tempo transforma as pessoas de maneira muito drásticas. O tom da narrativa é bastante diferente e os conflitos são de ordem menor e mais pessoal. Atticus é muito descaracterizado em comparação ao personagem anteriormente conhecido. Jean Louise é revoltada e insatisfeita com os rumos que sua família tomou, e se torna um pouco desacreditada da vida. Sua preocupação continua sendo enviesada pelas questões raciais e direitos humanos, mas para ser capaz de pensar tais questões, a personagem entra num grande desequilíbrio com sua família. É necessário esclarecer os conflitos intrínsecos de relacionamento entre eles para que a personagem prossiga em seu caminho.

A obra como um todo não possui uma estrutura muito coerente e coesa, ainda que tenha sido produzido antes, em alguns momentos a autora parece se esquecer do que havia escrito e de que tipo de estrutura e enredo havia planejado. As questões de maior relevância acabam sendo tratadas superficialmente no romance. O foco narrativo todo se dá em torno de uma reunião que acaba chocando as ideologias da jovem Scout e culminando num grande conflito entre a Jean Louise adulta e seu pai. O título da obra representará o novo olhar da personagem tanto para com as pessoas que ela ama, quanto para com a própria cidade de origem.

“O vigia de cada um é sua própria consciência. Não existe essa coisa de consciência coletiva.”

De modo geral, a leitura é valida afim de gerar um desfecho para “O sol é para todos”, mas em alguns aspectos é quase desnecessário e frustrante. As diferenças entre as duas obras é substancial e culmina numa espécie de desencantamento do leitor. A grande mensagem aqui será:

“É quando estão errados que os seus amigos mais precisam de você, Jean Louise, e não quando estão certos(…) Direitos iguais para todos; privilégios para ninguém.”

*Scout é o apelido de infância de Jean Louise, apresentado em “O sol é para todos”.

Ano: 2015
Editora: José Olympio
Número de páginas: 252
Nota: 3/5

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Resenha por: Munique

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2 comentários sobre “Resenha “Vá, coloque um vigia”

  1. Renato José de Carvalho disse:

    Harper Lee volta pertinente , filosófica e ao que me parece com uma escrita convidativa!

    “O vigia de cada um é sua própria consciência. Não existe essa coisa de consciência coletiva.”

    Curtido por 1 pessoa

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