Resenha “Quarto”

quarto-2

“No Quarto a gente sabia como tudo se chamava, mas no mundo tem tanta coisa que as pessoas nem sabem os nomes.”

Quarto é uma obra da escritora irlandesa Emma Donoghue, que inspirou o filme “O Quarto de Jack”, com 4 indicações ao Oscar, rendendo à Bire Larson o prêmio de melhor atriz.

O drama vivido por Jack e sua mãe provoca um turbilhão de sentimentos no leitor. Por isso, deve ser lido de coração aberto e preparado para uma história triste e dolorida, mas comovente e que desperta em quem está lendo a vontade de sorrir para o mundo, aproveitar tudo o que ele tem para oferecer e valorizar a vida de forma única.

A história é narrada em primeira pessoa por Jack, um menino que acaba de completar 5 anos, fala errado e sempre viveu trancado em um quarto, relacionando-se unicamente com sua mãe, sem nunca ter visto a luz do sol, a chuva ou a neve, à não ser na televisão, nem mesmo tido contato com qualquer outra pessoa além da Mãe. Logo no início da trama, nos  impressionamos com a inocência do menino, pela facilidade com que ele é agradado, pelas coisas simples que ele admira e como ele é feliz mesmo com tão pouco.

A Mãe, como é chamada durante toda a narrativa, foi sequestrada aos 19 anos pelo Velho Nick, – Jack não sabe o nome dele, mas o chama assim porque o relaciona com um homem que viu na televisão, que só aparece durante a noite e é chamado de velho Nick – um homem perturbado mentalmente, e mantida por 7 anos em um quarto, sendo abusada sexualmente durante todo esse tempo.

Dos abusos sofridos por ela, nasceu Jack. A Mãe, que não tinha nada a oferecer ao filho, à não ser o seu amor e os poucos recursos concedidos e permitidos pelo Velho Nick, como uma televisão, alguns móveis e utensílios velhos e uma alimentação bastante regulada, criou um mundo para Jack. Assim, tudo o que ele conhece é o que foi passado por sua mãe para protege-lo do sofrimento e confinamento.

No decorrer da trama, percebemos como o conhecimento de Jack é limitado e restrito. Ele acredita que o mundo é apenas o Quarto e tudo o que ele vê na televisão, principalmente os desenhos como “Bob Esponja” e “Dora, a Aventureira”, só existe ali. Nada existe de verdade. É interessante perceber que por não conhecer o mundo exterior, nunca ter ido à praia ou sentido o vento, nunca ter visto outras pessoas, não saber o que é ter avós, primos, família, amigos, ir à escola ou brincar, Jack não sente falta de nada disso. Sua vida apenas com a Mãe é perfeita. É a vida que ele conhece e é a única vida que ele quer ter!

No entanto, a história muda quando a Mãe, que conhece o mundo lá fora, decide revelar a Jack que tudo o que ele vê na televisão realmente existe e está fora do quarto. Ela diz a ele que precisam bolar um plano para fugir do “inferno”. No início, Jack fica apavorado, não quer fugir, se recusa a escutar o plano da mãe ou acreditar que ela esteja dizendo a verdade e chora muito, mas por fim é convencido e como ele é “temeroso (temor + corajoso), consegue libertar a si e a mãe do cativeiro onde vivem.

A partir daí, um momento que deveria ser o fim de um grande pesadelo, na verdade se revela a continuação de uma vida cheia de dificuldades. Agora “livres”, a Mãe tem que reaprender a viver em sociedade e em família, e Jack, que passa a ser alvo de curiosidade e notícia nos jornais como o menino “corcunda”, “desnutrido” e que “desce as escadas como um macaco”, tem que aprender a conviver com outras pessoas além da mãe. Por sua vez, a mãe passa a ser alvo de julgamentos, tendo que responder questões como porque não tomou outras alternativas para que Jack não tivesse que ser criado em cativeiro, quando ela sequer imaginara que ele pudesse viver longe dela, seja qual fosse a circunstância a que estivessem submetidos.

A vida fora do Quarto, que supostamente deveria ser feliz e voltar ao “normal”, trouxe para a Mãe uma profunda “depressão”. A angústia, o desânimo, a tristeza, exaustão e todo o sofrimento que está passando é transmitido com tanta profundidade ao leitor, especialmente porque tudo isso é narrado sob a visão inocente de Jack, que é impossível não nos sensibilizarmos com a sua dor e compreender com a mesma inquietude todos os sentimentos que a vida novamente em sociedade despertaram nela.

Já Jack, inicialmente não tem a menor vontade de falar com outras pessoas ou de ficar sozinho com elas sem a mãe, pedindo todo o tempo para voltar para o quarto.

“Em todo canto tinha pessoas que não eram minhas amigas.”

Nesse momento, podemos comparar Jack com Kaspar Hauser, um rapaz que apareceu numa cidade da Alemanha aos 15 anos, apenas com uma carta na qual explicava parte de sua história, descobrindo-se que ele teria vivido até então numa cela, sem qualquer contato verbal com nenhuma outra pessoa, de forma que não conseguia andar ou se expressar em nenhum idioma, nem mesmo por gestos. Posteriormente, ele aprendeu a andar e falar como uma criança, mas a exclusão social a que foi submetido jamais permitiu  que desenvolvesse conceitos e raciocínios como os seres humanos que sempre viveram em contato com outros seres humanos, não permitindo, por exemplo, que Hauser pudesse diferenciar sonhos de realidade. Assim como Hauser, Jack sentia que a sociedade era apenas um cativeiro maior.

Quarto é uma lição de vida emocionante, extremamente tocante e sensível. Rica em conceitos de Antropologia, nos mostra como é essencial o convívio em sociedade para que desenvolvamos todas as características, sentimentos e sensações do ser humano. Donoghue nos ensina que atividades como falar, andar, pensar e, até mesmo as emoções, não são intrínsecas e inerentes ao homem, mas são ensinadas e desenvolvidas, comprovando que tudo o que sabemos é porque vimos outras pessoas fazendo antes e aprendemos com elas.

Mesmo com um tema cruel, é uma história comovente na medida certa que retrata o relacionamento de uma mãe e um filho marcados por uma tragédia incompreensível, mas que através de Jack encontram forças para enfrentar o trauma, uma vez que o pequeno apesar da dificuldade em aceitar e entender a liberdade antes desconhecida, se mostra capaz de ajudar a mãe a manter a sanidade para que juntos, como sempre, aprendam a viver no mundo exterior com a mesma garra que sobreviveram ao quarto.

“No mundo eu noto que as pessoas vivem quase sempre tensas e não têm tempo. Até a vovó sempre diz isso, mas ela e o Vopô não têm emprego, então não sei como as pessoas empregadas fazem o trabalho e toda a vida também. No Quarto, eu e a Mãe tínhamos tempo pra tudo. Acho que o tempo é espalhado muito fino em cima do mundo todo, feito manteiga, nas ruas e nas casas e nas pracinhas e nas lojas, por isso só tem um tiquinho de tempo espalhado em cada lugar, e aí todo mundo tem que correr pro pedaço seguinte. Além disso, em todo lugar que eu olho para as crianças, os adultos quase todos parecem não gostar delas, nem mesmo os pais. Eles chamam os filhos de lindos e tão bonitinhos, mandam as crianças fazerem tudo de novo pra eles poderem tirar fotos, mas não querem de verdade brincar com elas, preferem tomar café conversando com outros adultos. Às vezes tem um bebezinho chorando e a Mãe dele nem ouve.”

blogger-image-1992449038

Ano: 2011
Editora: Verus
Número de páginas: 350
Nota: 5/5

Resenha por: Camila

 

Anúncios

2 comentários sobre “Resenha “Quarto”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s