Resenha “É isto um homem?”

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“Há muito tempo que parei de tentar compreender. Quanto a mim, estou tão cansado de me aguentar no pé ferido e ainda não medicado, tão enregelado e faminto, que já não ligo para nada. O dia de hoje bem pode ser meu último, e esta sala, a sala de gás da qual todo mundo fala, e daí? Que é que eu poderia fazer? Dá no mesmo encostar-se na parede, fechar os olhos e esperar.”

É isto um homem?, publicado pela primeira vez em 1947, traz o relato de um dos poucos sobreviventes a um dos maiores massacres da história da humanidade, realizado nos Campos de Extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o que torna a obra ainda mais impactante.

A primeira coisa que você precisa saber sobre este livro é que ele é diferente de tudo o que já vimos e lemos sobre o Holocausto, inclusive daqueles livros de mil e tantas páginas, resultado de pesquisas e do trabalho de anos de grandes historiadores. Contudo, como o próprio autor diz, ele não traz nada de novo. Não há novas denúncias, apenas o que já é de conhecimento de todos os leitores espalhados pelo mundo. Antes, trata-se de uma obra contada não em ordem cronológica, mas em ordem de urgência, cujo maior objetivo é fornecer documentos para o estudo de alguns aspectos da alma humana.

Primo Levi (1919 – 1987), foi um químico e escritor italiano judeu, preso pela milícia fascista em 13 de dezembro de 1943, no auge de seus 24 anos, quando fazia parte do movimento de resistência italiano. Foi levado para Auschwitz em 1944, após o governo alemão resolver prolongar a vida média dos prisioneiros destinados ao extermínio, em razão da escassez de mão-de-obra. Cabe aqui dizer que, por mais absurdo que seja pareça, Auschwitz representava a concessão de uma “melhora razoável” no nível de vida dos prisioneiros e, ainda, a “suspensão temporária” das matanças arbitrárias.

“A noite chegou e todos compreenderam que olhos humanos não deveriam assistir, nem sobreviver a uma noite dessas. Nenhum dos guardas, italianos ou alemães, animou-se a vir até nós para ver o que fazem os homens quando vão morrer. Cada um se despediu da vida da maneira que lhe era mais convincente. Uns rezaram, outros se embebedaram; mergulharam alguns em nefanda, derradeira paixão. As mães, porém, ficaram acordadas para preparar com esmero as provisões para a viagem, deram banho nas crianças, arrumaram as malas, e, ao alvorecer, o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar. Elas não esqueceram as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, nem todas as pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem. Será que vocês não fariam o mesmo? Se estivessem para ser mortos, amanhã, junto com seus filhos, será que hoje não lhes dariam de comer?”

Todas as pessoas, incluindo famílias inteiras, levadas à Auschwitz, lá estavam porque haviam sido presas pelos fascitas ou pelos nazistas ou porque haviam sido delatadas. Levi conta que ao chegar no campo de concentração em janeiro de 1944, os judeus italianos eram em torno de 150 e algumas semanas depois já passavam de 600. Após chegarem ao destino, trazidos em trens lotados de pessoas em condições sobre-humanas, as famílias eram imediatamente separadas para sempre; as mulheres e crianças enviadas para um campo próximo; os homens sãos e jovens separados dos doentes e idosos, e estes dois últimos, já que não apresentavam condições aptas para o trabalho, enviados para as câmaras de gás. Tiveram seus cabelos raspados, seus pertences tomados, perderam seus nomes e receberam um número para identificação, ficaram dias e dias nus, em pé e com uma sede desesperadora, pois não receberam uma gota de água.

“E lá recebemos as primeiras pancadas, o que foi tão novo e absurdo que não chegamos a sentir dor, nem no corpo nem na alma.”

Além dos italianos, foram levados para o campo prisioneiros polonoses, ingleses, húngaros, holandeses, franceses, e de inúmeras outras nacionalidades europeias, o que fazia de Auschwitz uma imensa babel. Em sua maioria, naturalmente não falavam alemão e, por conta disso, não entendiam as ordens e xingamentos dos alemães, o que os levava a apanhar quase com a mesma frequência que alguém pisca.

“Aqui, a confusão das línguas é um elemento constante da nossa maneira de viver; a gente fica no meio de uma perpétua babel, na qual todos berram ordens e ameaças em línguas nunca antes ouvidas, e ai de quem não entende logo o sentido. Aqui ninguém tem tempo, ninguém tem paciência, ninguém te dá ouvidos; nós, os recém-chegados, instintivamente nos juntamos nos cantos contra as paredes, como um rebanho de ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas.”

Nos campos de concentração em Auschwitz os prisioneiros tinham direito à um par de roupas que deveria servir-lhes tanto para o frio quanto para o calor; uma cama de madeira, montada em diversos beliches, com um fino colchão de palha que deveria ser compartilhada com outro prisioneiro, ninguém dormia sozinho, e o espaço entre um beliche e outro era tão pequeno que não cabia nem uma pessoa em pé; um par de tamancos de madeira sem numeração, escolhidos na sorte, tão pesados e duros que em pouco tempo todos os prisioneiros se viam com os pés feridos e forçados a se adaptar às chagas que nunca sarariam; uma gamela para a sopa e uma colher; um pão duro pela manhã e uma sopa rala à noite; e uma jornada exaustiva, de mais de 10 horas por dia, de trabalho pesado. Eram obrigados a acostumarem-se com a lama e com a aparência degradante que adquiriram: olhos fundos, rosto encovado e costelas  aparentes.

Levi relata que o maior inimigo dos prisioneiros não eram os alemães, nem a fome, nem mesmo a prisão em si, mas o frio, que era tão agressivo que chegavam a esquecer da fome arrasadora que sentiam. Nos primeiros dias do inverno, centenas de prisioneiros faleciam e logo tinham suas roupas “furtadas” para que outros pudessem aproveitá-las na tentativa de manterem-se aquecidos, mesmo que fosse insuficiente, já que não tinham sequer cobertores e podiam contar apenas com a fina roupa do corpo.

Quando ficavam doentes, e era absolutamente certo que ficariam, contavam com a sorte de passarem pela avaliação dos médicos e estes concluírem que realmente necessitavam de cuidados e possuíam chances de se recuperar, ou com a astúcia de quem já estava acostumado com o campo e tinha coragem de se aventurar em driblar os médicos, pois se fossem considerados “saudáveis” eram enviados de volta para o trabalho e caso diagnosticados com doença terminal, imediatamente enviados para as câmaras de gás. Doença contagiosa e terminal no campo de concentração era o que mais se via. Uma vez aceitos no Ka-be (como os prisioneiros chamavam a enfermaria), tinham acesso a uma cama só para eles e podiam, enfim, descansar, permanecendo lá pelo período máximo de dois meses, de acordo com a necessidade de cada doença, a fim de serem “devidamente” tratados. Ao final dos dois meses, quem não havia se recuperado era também enviado para o extermínio.

Com o fim do inverno, o inimigo era outro: a fome. O trabalho árduo que desempenhavam no campo exigia no mínimo uma alimentação razoável, mas tudo o que tinham eram algumas rações de pão e uma sopa rala todos os dias, faça chuva ou faça sol, sempre a sopa. Em decorrência disso, os prisioneiros criaram uma hierarquia interna, onde mesmo sabendo que iriam morrer, os prisioneiros contribuíam para a manutenção do cárcere ou para uma ração de comida a mais.

Um dado diverso do obtido nos filmes sobre o Holocausto, pois estes em sua maioria mostram a união e irmandade entre os prisioneiros, já Levi revela que o inverso também acontecia. Os roubos eram constantes nos campos, os prisioneiros tratavam uns aos outros com hostilidade e poucos podiam considerar que tinham amigos ou pessoas em quem confiar. Levi e todos os demais eram obrigados a levar seus pertences para onde quer que fossem, até mesmo para o banho, e deviam dormir abraçados à eles, pois qualquer descuido implicaria no roubo dos objetos e estes não eram de forma alguma repostos pelos alemães ou pelos soviéticos, que realizavam a supervisão dos campos. Caso tivesse a gamela ou a colher furtadas, por exemplo, o prisioneiro não conseguiria comer, pois os alemães não poderiam saber que as tinham perdido e não era permitido emprestar.

Levi permaneceu no campo de extermínio de Auschwitz por um ano, até que o exército russo invadiu aquela região e obrigou os alemães a evacuarem os campos, abandonando ali todos os prisioneiros. Após a invasão, alguns presos fugiram, outros foram mortos pelo exército russo ou por doença, e outros, incluindo Levi, permaneceram no campo a fim de esconderem-se e encontrarem ali algum resquício de humanidade e condições mínimas de sobrevivência até que soubessem para onde ir e o que fazer com a libertação. No total, dos mais de 650 italianos presos com Levi, apenas 20 sobreviveram.

A desumanização presente em Auschwitz serviu para destruir a resistência individual e coletiva e manter, com sucesso, o sistema repressor criado por Hitler. Em pouco tempo os homens perderam a sua dignidade, a força e vontade de lutar por suas vidas. Alguns decidiram que iriam morrer com a mesma dignidade com a qual viveram antes do confinamento, e outros, ainda que sobrevivessem, a lembrança de como eram suas vidas antes dos campos de concentração já não existia.

É isto um homem? é um relato perturbador de alguém que lutou arduamente contra a desumanização, para não se tornar o animal que os alemães pensavam que eles eram e manter a sanidade mental, ainda que não possuísse nenhuma esperança de sair vivo do massacre. Como o próprio autor afirma no livro, não existe vocabulário humano que possa descrever o que os prisioneiros sentiram ao chegar em Auschwitz e tampouco que o que foi o Holocausto. A obra nos leva a questões como “Quem somos nós?”, “Do que somos capazes?”, “É possível existir tanta maldade e crueldade em um só homem?”, “Quanto existe de humanidade em cada um de nós?”. Levi, neste livro, é capaz de provar que em meio ao horror é possível descobrir o que nos torna humanos e por causa disso, encontrar um meio de lutar pela vida.

Um relato do nível de crueldade a que o homem é capaz de atingir, mas sem a incitação de violência ou ódio. Apenas a história sendo contada como ela é e como aconteceu. Uma leitura necessária sobre um dos períodos mais dolorosos, obscuros e atrozes que a humanidade já presenciou.

“Não sabemos, porém, para onde vamos. Talvez sobrevivamos às doenças e escapemos às seleções, talvez aguentemos o trabalho e a fome que nos consomem, mas, e depois? Aqui, longe (por enquanto) das blasfêmias e das pancadas, podemos retornar dentro de nós mesmos e refletir, e torna-se claro, então, que voltaremos. Viajamos até aqui nos vagões chumbados; vimos partir rumo ao nada nossas mulheres e nossas crianças; nós, feito escravos, marchamos cem vezes, ida e volta, para a nossa fadiga, apagados na alma antes que pela morte anônima. Não voltaremos. Ninguém deve sair daqui; poderia levar ao mundo, junto com a marca gravada na carne, a má nova daquilo que, em Auschwitz, o homem chegou a fazer do homem.”

Ano: 2013
Editora: Rocco
Número de páginas: 256
Nota: 5/5

Resenha por: Camila

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